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Capítulo 03: mais vítimas de Saulo Inácio - um rastro de abusos no Brasil e nos Estados Unidos

  • Foto do escritor: Rafael Miranda
    Rafael Miranda
  • 9 de ago. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 13 de ago. de 2025

Saulo Inácio de Sousa está preso em Palmas-TO desde o dia 16 de maio de 2025. Ao longo do trabalho de apuração do Jornal Primeira Página no caso de Débora* e Ester*, outras três vítimas do pastor Saulo foram entrevistadas, com relatos de abusos sexuais que ocorreram entre os anos de 2006 e 2015 – tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Nenhuma dessas vítimas constam na denúncia que resultou na prisão de Saulo Inácio.

 

Neste capítulo, são apresentados os relatos inéditos de Miriam*, Abigail* e Rute* (nomes fictícios), que, após a ciência da prisão de Saulo Inácio, tomaram a decisão de expor os crimes sexuais cometidos contra elas. Todas as três vítimas foram abusadas enquanto eram crianças, em idades próximas à faixa etária em que Débora* e Ester* também foram vítimas.

 

Seus nomes, como de praxe em reportagens dessa natureza, a qual envolvem crimes de cunho sexual contra crianças, foram preservados. Além disso, outros detalhes, como localidades exatas e graus de proximidade com o agressor, também foram alterados. Essas medidas tem como objetivo impedir a identificação da vítima.

 

Até a data de publicação deste trabalho jornalístico, em agosto de 2025, duas das vítimas já haviam formalizado suas denúncias às autoridades competentes.

 

Miriam*, vítima aos 11 anos de idade em Palmas-TO

 

O primeiro relato apresentado nesta reportagem foi gravado em formato de vídeo na sede do Jornal Primeira Página em junho de 2025. Trata-se de Miriam*, vítima do pastor Saulo Inácio aos 11 anos de idade, com relatos de abusos sexuais ocorridos em Palmas no ano de 2011.

 

Miriam*, hoje com 25 anos, foi abusada na época em que ela e sua família frequentavam a igreja O Brasil Para Cristo (OBPC), onde Saulo era o pastor responsável. Em seu relato, ela descreve em detalhes como ocorreram os abusos, através de uma entrevista publicada na íntegra.

 

A vítima comenta ainda sobre os traumas e impactos em sua vida pessoal decorrente dos abusos sofridos, e o que sentiu ao saber que Saulo Inácio havia sido preso em maio deste ano - 2025. Confira o relato abaixo:



Abigail* e o pesadelo de uma viagem de fim de ano em 2015

 

A segunda vítima de Saulo Inácio entrevistada pelo Jornal Primeira Página foi Abigail*. Era dezembro de 2015 quando ela, então com 14 anos, fez uma viagem para passar o Natal e o Ano Novo em uma cidade de Minas Gerais. Saindo de Goiânia-GO, estava no carro seus familiares e o pastor Saulo junto com a esposa dele, Leda Maria - que faleceu em 2022.

 

Foi durante este trajeto até uma cidade na região sul de Minas Gerais, com mais de 700 quilômetros de distância de Goiânia-GO, que ocorreram essas primeiras investidas contra a vítima.

 

Em sua entrevista, realizada por telefone em junho de 2025, Abigail*, que hoje tem 24 anos, contou que no banco de trás do carro Saulo praticou atos libidinosos contra ela. "Era de noite, alguns estavam dormindo durante a viagem e ele começou a passar a mão na minha coxa, apertando". Abigail* contou que na época imaginou que o pastor teria se enganado e achava que estava tocando na sua esposa.

 

Ao chegarem no destino, o grupo em que estava Abigail iniciou as celebrações de fim de ano. Durante outro trajeto no carro, também no banco do passageiro, Saulo tornou a praticar atos libidinosos contra Abigail*, dessa vez, tocando em seus seios.

 

"E eu lembro desse momento, eu respirava fundo, pedindo dentro de mim para ele tirar a mão. Mas eu não conseguia falar. Eu simplesmente travei ali dentro do carro, e meu pai estava dirigindo no banco da frente."

 

Mais outros dois episódios ocorreram contra Abigail* nessa mesma viagem de fim de ano. Na noite de Natal, enquanto grupos de familiares e amigos celebravam a ceia, a vítima recebeu mensagens no celular enviadas pelo pastor Saulo Inácio:

 

"Ele mandou mensagem no meu telefone perguntando se eu já ia dormir, e eu respondi que não. Na sequência, ele respondeu: “friozinho hoje, né? Bom pra dormir de conchinha."

 

Abigail*, nesse momento, contou que ficou desesperada. "Eu corri e apaguei as mensagens, imaginei na época que se meu pai visse as conversas, poderia achar que era eu falando com ele [Saulo]."

 

Poucos dias depois, na noite do Ano Novo, Saulo tornou a investir com mensagens contra Abigail*. "No réveillon, eu e meus primos e primas da mesma idade íamos para a praça da cidade, que era perto de onde estávamos. Ele [Saulo] insistiu que queria ir com a gente, mas a Leda [esposa de Saulo] não deixou."

 

Segundo a vítima, perto da meia-noite do dia 31 de dezembro de 2015, outra mensagem foi enviada para o seu celular, onde Saulo escreveu "feliz Ano Novo para a morena mais linda que eu já conheci".

 

Abigail* relembrou como se sentiu na época, com 14 anos de idade. "Sentia uma sensação de impotência mesmo. Não sei explicar. Parece que você vira uma estátua. Fica paralisada, sem ter reação nenhuma".

 

Quanto aos traumas decorrentes dos abusos e assédios, a vítima relatou que, após a viagem de fim ano com o pastor Saulo, buscou acompanhamento psicológico onde foram identificados impactos emocionais que afetaram sua vida pessoal e familiar.

 

“Então, depois de tudo, eu fiz acompanhamento psicológico por um tempo e acredito que tenha refletido um pouco na minha vida na época, em relação a ter um certo receio do afeto familiar e repelir isso”, afirmou.

 

Em busca de compreender melhor as consequências do trauma, a vítima relata ter identificado outros impactos em sua saúde emocional e relacionamentos. “Identifiquei problemas de autoestima, problemas relacionados a autoconfiança, também um reflexo nas relações, necessidade excessiva de agradar, procrastinação e autossabotagem, amadurecimento precoce, e dificuldade em confiar nas pessoas”

 

Rute*, abusada sexualmente nos Estados Unidos em 2006

 

Rute* é a vítima mais antiga entrevistada pelo Jornal Primeira Página. O abuso sexual que sofreu ocorreu em 2006, quando Saulo Inácio morava nos Estados Unidos, no estado de Connecticut – costa leste do país. Na época, Rute* tinha 09 anos de idade e conheceu Saulo por frequentar a mesma igreja que ele, a New Hope Christian Community – na cidade de Stamford.

 

Conforme relatado no capítulo 04 desta reportagem, Saulo Inácio era diácono nessa igreja, muito frequentada por comunidades de brasileiros das cidades de Norwalk e Stamford. O abuso sexual ocorreu durante uma confraternização na casa de um dos frequentadores da New Hope Christian Community.

 

Em entrevista ao Jornal Primeira Página, Rute*, hoje com 28 anos, lembra detalhes de quando foi abusada por Saulo, que na época tinha 46 anos. "Eu lembro que foi no verão, porque quando aconteceu o abuso, eu estava de short e aqui o inverno é bem severo. Enquanto as outras pessoas estavam fora da casa, fazendo churrasco no quintal, eu estava brincando no computador lá dentro e foi quando ele apareceu", contou.

 

O relato segue com Rute* descrevendo a forma como o abuso ocorreu. "Ele veio por trás de mim, eu estava sentada na cadeira e ele falou para eu ficar quietinha, que vai ficar tudo bem. E falou para eu não contar para ninguém. E foi passando a mão em mim, sabe? Passou a mão nos meus seios, passou a mão lá embaixo [vagina]. E ele ficou um tempo fazendo esse movimento, eu não sei quanto tempo, mas assim, ele repetia", afirmou.

 

Rute* afirmou durante a entrevista que consegue lembrar somente desse episódio em que foi abusada. Contudo, revelou que acredita ter passado por outras situações semelhantes com Saulo Inácio. "Eu tenho para mim que aconteceu mais vezes, porque como era rotina os encontros da igreja, não sai da minha cabeça que pode ter acontecido mais vezes."

 

Perguntada sobre os impactos que vivencia até os dias de hoje por conta do abuso que sofreu, Rute* afirmou ter ficado bastante "traumatizada" com o ocorrido.

 

"Eu decidi quando era criança que eu não ia falar para ninguém, eu preferi enterrar esse assunto, sabe? Então, dentro de mim, eu passei todos esses anos não querendo falar sobre, não sabia como lidar com isso. Agora que veio à tona tudo isso [prisão do Saulo em maio de 2025], que eu resolvi denunciar. Para mim está sendo bem difícil. Eu faço terapia já tem muitos anos, eu sou muito desapegada, eu sou muito fria. Eu não consigo confiar em ninguém ao meu redor. Eu não consigo me socializar direito. Eu achava que era a minha personalidade, mas agora, revivendo o momento, eu percebo que o meu jeito de ser mudou muito depois de tudo isso", finalizou.

 

Defesa de Saulo Inácio

 

Em nota enviada ao Jornal Primeira Página para comentar sobre os três relatos das vítimas contidas nesse capítulo da reportagem, os advogados de defesa de Saulo Inácio informaram que em relação aos “novos fatos envolvendo o Sr. Saulo Inácio, a defesa não se pronunciará, haja vista, que não tem conhecimento dos mesmos.”

 

Confira a nota na íntegra:

 

“A Defesa de SAULO INÁCIO DE SOUSA, patrocinada por este Advogado Dr JOSIRAN BEZERRA, informa que referente a condenação do Sr. Saulo Inácio capitulada no Art 217-A, que perfaz 19 anos e 8 meses de reclusão, encontra-se em fase de REVISÃO CRIMINAL, tramitando junto ao TJTO, aguardando julgamento. E quanto a novos fatos envolvendo o Sr Saulo Inácio, a defesa não se pronunciará, haja vista, que não tem conhecimento dos mesmos!”

 

Próximos capítulos desta reportagem:


Capítulo 04: Saulo Inácio – garimpeiro, entregador de pizza, diácono nos EUA e pastor em Palmas


A partir de uma série de entrevistas com amigos, familiares e conhecidos de Saulo Inácio de Sousa, o Jornal Primeira Página apresenta o histórico do personagem alvo das denúncias contidas nesta reportagem, e sua passagem como membro de serviço em duas igrejas no Brasil e nos Estados Unidos.


Capítulo 05: as articulações políticas de Saulo Inácio na Câmara Municipal de Vereadores e Prefeitura de Palmas


Em Palmas, após o retorno dos Estados Unidos no ano de 2009, Saulo criou vínculos políticos na capital: ganhou um terreno da Prefeitura de Palmas para uma associação religiosa recém-constituída por ele, recebeu uma homenagem da Câmara Municipal de Vereadores em 2017 e trabalhou na Secretaria Municipal de Finanças em 2019, onde assediou servidoras e uma jovem aprendiz.


Capítulo 06 – Os traumas das vítimas e a atuação da rede municipal de ensino em Palmas


A psicóloga especializada em atendimentos a crianças e adolescentes, Dra. Ana Carolina Peixoto, fala sobre os impactos da violência sexual nas vítimas. Entenda também como a rede municipal de ensino de Palmas atua diante de casos de abuso envolvendo alunos e alunas da capital.


Capítulo 07 – Violência sexual no Tocantins: dados, investigações e justiça


Confira os dados sobre os casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Tocantins, além do trabalho investigativo da Polícia Civil, por meio da delegacia especializada em Palmas. O capítulo traz ainda uma entrevista com um promotor de Justiça sobre a legislação e a atuação do Ministério Público em casos de abuso contra a população vulnerável.



 
 
 

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Denúncias de crimes sexuais contra crianças podem ser feitas na Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA - Palmas)

Telefone(s): (63) 3218-6830 (fixo e whatsApp)
Email: dpca@ssp.to;gov.br
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