Notas do Repórter – bastidores da produção de uma reportagem
- Rafael Miranda
- 12 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 18 de ago. de 2025
Minha jornada pela vida do pastor Saulo Inácio de Sousa e os crimes sexuais retratados nesta reportagem começou em uma noite de sexta-feira, 30 de maio, precisamente às 21h. Eu estava em um estúdio na casa de um amigo, tocando com outros músicos, quando notificações de mensagens começaram a chegar no meu celular.
Assim que terminamos a passagem do primeiro som, peguei o telefone e li rapidamente o conteúdo. Havia um breve texto com o seguinte título: “Olá! Gostaria de sugerir uma pauta de extrema importância e interesse público”. Na sequência, informações sobre a prisão de Saulo Inácio por estupro de vulnerável em Palmas-TO.
O texto continuava: “Durante muito tempo, ele usou de sua posição e influência para manipular e assediar crianças e mulheres. Agora que está preso, é fundamental que a sociedade saiba o que ele fez — e que outras vítimas vejam que não estão sozinhas”. Outro trecho destacou: “Acredito que essa matéria pode não apenas informar, mas também encorajar outras pessoas a romperem o silêncio”.
Quem enviou essas mensagens foi uma das vítimas de Saulo Inácio, cuja entrevista está nesta reportagem. Junto com o texto, havia um arquivo PDF com o mandado de prisão contra ele, emitido em fevereiro de 2025. No mesmo instante, respondi à vítima, agradeci o contato e a coragem de se apresentar e falar sobre o assunto, e informei que conversaria com ela no final de semana.
No sábado, 31 de maio, não entrei em contato com a vítima. Fiz a releitura do conteúdo das mensagens e o arquivo contendo o mandado de prisão, e fiquei refletindo sobre o assunto. Somente no domingo, 1º de junho, comecei, de fato, a me aprofundar na reportagem — o início de um mergulho que me fez ir muito longe nessas histórias traumáticas, dolorosas e tão recorrentes.
Ainda nesse domingo, fiz minhas primeiras pesquisas para entender quem era o pastor Saulo Inácio, de quem nunca tinha ouvido falar. Bastaram 30 minutos no computador para conseguir algumas informações que me chamaram atenção. Foi então que tomei a decisão que realmente fez a grande diferença para entrar de vez nessa apuração: saí de casa e fui para a rua.
Perto das 16h daquele domingo, fui ao local onde funcionava a igreja O Brasil Para Cristo, na época em que Saulo era o pastor responsável. Eu já havia pesquisado horas antes que a associação criada por ele foi beneficiada com a doação de um terreno pela Prefeitura de Palmas em 2015.
Chegando ao local, encontrei uma construção abandonada. Vi que um carro estava estacionado na garagem e, mais adiante, uma mulher estendendo roupas em um varal. Fiz algumas perguntas a ela, anotei informações e segui para o próximo destino: a atual sede da igreja O Brasil Para Cristo, na quadra 406 Norte.
Minha intenção de ir à congregação era meramente obter mais informações sobre Saulo Inácio, pois imaginei que lá poderia encontrar alguém que o tivesse conhecido. Conversei com poucas pessoas, de forma muito discreta, pois o tema era bastante delicado. Já era noite de domingo quando algo aconteceu que eu jamais imaginava: uma fonte relatou conhecer outra vítima do pastor Saulo.
Confesso que fiquei chocado naquela noite de domingo, 1º de junho, depois de ter me deparado com essa fonte de uma forma tão rápida. Meus pensamentos dispararam e, durante o trajeto de volta para casa, por volta das 21h, eu já estava sentindo aquilo que todo jornalista sente: aqui está um caso a ser investigado.
Assim que cheguei em casa, entrei em contato com a vítima que havia me mandado mensagens na sexta-feira, 30, e marcamos de falar por telefone no dia seguinte. Enquanto isso, a fonte que consegui na igreja falou com a outra vítima, que também aceitou dar uma entrevista.
Assim, nasceu a reportagem “Saulo Inácio – criminoso sexual”. Contudo, havia muito mais para apurar; era só o começo de um longo trabalho de quase três meses de investigação jornalística.

As vítimas de abuso sexual do pastor Saulo Inácio
Primeiro, expresso aqui meus profundos agradecimentos às vítimas do pastor Saulo Inácio, que tiveram a coragem e a confiança de quebrar o silêncio em suas entrevistas ao Jornal Primeira Página e de denunciar os crimes que sofreram enquanto crianças. São elas: Miriam*, Abigail* e Rute*.
Para a escolha dos nomes fictícios utilizados nesta reportagem, recorri a referências de grandes mulheres da história bíblica, cujos nomes dialogam, em diferentes aspectos, com a trajetória pessoal de cada uma delas.
Escrever uma reportagem como esta não chega nem perto da força em falar sobre os traumas tão profundos e violentos que sofreram. Afinal, como disse a psiquiatra Judith Herman, “não é só o que acontece com a criança, é o que ela teve que fazer sozinha com aquilo”.
Durante as entrevistas que fiz com três das cinco vítimas retratadas nesta reportagem, vi grandes mulheres que cresceram machucadas pela sombra de um homem. E quantas outras ainda estão sob essa mesma sombra? Quantas permanecem no silêncio, revivendo esses traumas? Quantas não tiveram a oportunidade de falar?
Contudo, o ato de expressar, de expor, é somente delas, e para isso exige-se respeito. Foi um grande desafio seguir com essa apuração, pois eu sempre pensava: e se ela não quiser falar sobre o assunto? E se minha abordagem for uma afronta para aquilo que se deseja enterrar no passado? Até onde posso ir em busca dessas vítimas?
Ter esse cuidado, por exemplo, me fez não buscar, em nenhum momento, contato diretamente com Débora* e Ester*. Como eu já tinha as informações necessárias através de fontes que atenderam essas vítimas na escola, não havia necessidade de fazer com que elas falassem, mais uma vez, sobre como tudo ocorreu.
Eu tive que me preparar muito para fazer esse trabalho, muito mesmo. Cada abordagem, seja com uma fonte ou com uma vítima, foi milimetricamente pensada, repensada e reformulada para ocorrer da forma mais respeitosa e segura possível. E conduzir o trabalho dessa maneira trouxe resultados e consegui praticamente tudo que precisava.
Assim, a confiança com as vítimas foi estabelecida, e o principal motor — o anonimato e a própria segurança delas — posto desde o primeiro instante, foi crucial para seguir com as entrevistas e formar esta reportagem denunciando casos sérios de abuso sexual cometidos pelo pastor Saulo Inácio.
Aprofundando o tema
A reportagem “Pastor Saulo Inácio, crimes sexuais” não informa somente os relatos de abusos sexuais das vítimas. Desde o início, senti que era preciso falar sobre outras coisas: os traumas psicológicos (de forma técnica), a investigação desses casos, a legislação e tantos outros assuntos que norteiam esse tema.
Por isso, também agradeço aos profissionais que concederam suas entrevistas para este trabalho: Dra. Ana Carolina Peixoto (psicóloga), Dr. Diego Nardo (Promotor do Ministério Público do Tocantins), Dr. Rodrigo Santili (Delegado de Polícia) e Érica Pollyana (Assistente Social).
E claro, às dezenas de fontes anônimas com quem conversei para traçar o histórico de Saulo Inácio e localizar as vítimas de abusos sexuais. Foram essas fontes que me fizeram entrar em contato com uma vítima que mora nos Estados Unidos, abusada em 2006, enquanto o pastor morou fora do Brasil.
Também foi uma dessas fontes, por exemplo, que revelou detalhes sobre a passagem de Saulo Inácio na Prefeitura de Palmas entre os anos de 2019 e 2020, onde assediou várias servidoras, inclusive, uma jovem aprendiz de 16 anos.
A família de Saulo Inácio
Desde o início, estabeleci um processo de apuração para esta reportagem onde não faria nenhum contato com os familiares mais próximos de Saulo Inácio. Primeiro, por respeito ao momento que vivem desde a prisão do pastor; e segundo, por querer preservar essas pessoas que não têm ligação nenhuma com os crimes cometidos.
Para escrever sobre a história de Saulo Inácio — desde sua chegada em Gurupi-TO no final dos anos 70, sua passagem pelo garimpo no Pará e depois o tempo morando nos Estados Unidos —, foram necessárias várias e várias conversas com fontes mais distantes dele.
Inclusive, houve o trabalho de checar essas informações. Eu não podia confiar somente em um relato, eu precisava de mais. Por se tratar de fatos antigos, de ao menos 40 anos atrás, muitas datas eram confundidas ou não reconhecidas pelas fontes entrevistadas. Dessa forma, tentei ao máximo chegar perto de tudo aquilo que foi apurado e escrito.
Senti a necessidade de contar a história de Saulo Inácio, com detalhes sobre as cidades e estados em que morou, por conta de uma pergunta: existem outras vítimas dele?
Outras vítimas de Saulo Inácio
Durante o trabalho de apuração desse caso, encontrei informações sobre outras duas possíveis vítimas de Saulo Inácio entre os anos de 2012 e 2016. Contudo, não foi possível localizar nenhuma dessas pessoas.
Uma delas tem grandes possibilidades de ser real, pois foi citada no caso de Débora* e Ester*. Tratava-se de uma amiga das meninas, que frequentava a igreja e que teria sido abusada pelo pastor, conforme uma das crianças.
Em todos os cinco relatos contidos nesta reportagem, Saulo Inácio criou situações para abusar de crianças a poucos metros de distância de seus pais. A natureza reiterada e quase compulsiva de seu comportamento levanta a suspeita da existência de outras vítimas.
Agora, com a formalização das denúncias apresentadas nesta reportagem, cabe às autoridades retomar as investigações sobre os crimes sexuais de Saulo Inácio.
O Jornalismo vive.



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